4 gastos médicos comuns que as pessoas esquecem de declarar e perdem restituição
Deixar de deduzir despesas com aparelho ortodôntico, viagens para tratamento e coparticipação pode fazer você perder até R$ 1.500 de restituição.


Chegou aquela época do ano em que a maioria das pessoas sente um frio na barriga ao olhar para a pilha de papéis ou para a tela do programa da Receita Federal. Eu sei que é tedioso. Mas também sei que nada pega mais mal do que descobrir, meses depois, que você deixou dinheiro na mesa por pura falta de atenção. Quando falamos de Imposto de Renda, as despesas médicas são o "ouro" da declaração. Ao contrário do que acontece com despesas de educação, que têm teto, ou com dependentes, que têm valores fixos, as médicas são dedutíveis integralmente (sem limite de valor) na base de cálculo.
O erro mais comum não é declarar algo grande como uma cirurgia, mas sim ignorar os pequenos e médios gastos que, somados, fazem uma diferença brutal no valor a receber ou a pagar. Se você faz a declaração no modelo completo, ignorar estes itens é jogar fora a chance de reduzir o imposto devido. A Receita não vai te cobrar se você deduzir menos do que deveria, mas o seu bolso vai sentir o impacto.

Aparelho ortodôntico e o tratamento dentário caro
Muita gente acha que dentista é só limpeza anual e esquece que tratamentos ortodônticos são de longe uma das despesas mais altas e frequentes no IR. O erro clássico aqui é deduzir apenas o valor pago à vista no ano de referência e esquecer as parcelas. Se você pagou a entrada do aparelho do seu filho em dezembro de 2025, mas parcelou o restante em 2026, você deduz apenas a entrada na declaração deste ano (calendário 2025/2026). As parcelas pagas em 2026 só entram na declaração do próximo ano.
Por outro lado, se você parcelou em 2025 pagamentos que se estenderam até 2026, tudo o que saiu do seu conta corrente em 2025 deve constar na declaração atual. Outra confusão silenciosa envolve o plano odontológico propriamente dito. A Receita Federal é rígida: a mensalidade de um plano odontológico empresarial ou individual, por si só, muitas vezes não é aceita como despesa médica dedutível se não for enquadrada como plano de saúde abrangente.
No entanto, gastos com odontologia feitos por fora do plano (co-pagamentos ou particulares) são 100% dedutíveis. Se você tem um Uniodonto que cobre apenas limpeza, mas pagou R$ 3.000,00 de raiz no dentista particular, esses R$ 3 mil vão na ficha de "Pagamentos Efetuados". O recibo precisa ter o CPF ou CNPJ de quem recebeu. Se o dentista isento emitir apenas um recibo simples, não tem problema, desde que conste o nome e o CPF dele e a data. Eu recomendo guardar a nota fiscal em PDF por cinco anos, pois a Receita pede comprovante na hora da malha fina.
Psicoterapia: um custo elevado que ninguém deve ignorar
Houve um tempo em que a terapia era vista como um luxo, mas hoje é um item de orçamento fixo para milhões de brasileiros. Uma sessão de psicologia ou psiquiatria custa, em média, entre R$ 250,00 e R$ 500,00 nas grandes capitais. Se você vai uma vez por mês, já são R$ 6.000,00 por ano. Se forem semanais, falamos de quase R$ 25.000,00 anuais. Esquecer de lançar isso é jogar fora uma dedução enorme.
Aqui, o erro técnico ocorre na classificação errada no programa. Psicólogos e psiquiatras são profissionais da saúde. Pagamentos feitos a eles devem ser lançados como "Médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais". Nunca coloque isso como "Outros Pagamentos" ou "Educação", pois isso não vai reduzir sua base de cálculo corretamente.
Um ponto de atenção: se você paga terapia via_PIX_ para um profissional que não emite recibo, você está se arriscando. A Receita cruza dados. Se você declara dependentes e alta renda, espera-se despesas de saúde compatíveis. Ter os comprovantes é essencial. Além disso, lembre-se que a nutrição só é dedutível se prescrita por médico como parte de um tratamento de doença (como diabetes ou obesidade mórbida), não apenas para estética. A terapia, por sua vez, não precisa de prescrição médica para ser dedutível; o recibo do próprio psicólogo basta.
Deslocamentos para tratamento: quando a conta da Uber vale
Este é um item esquecido em 9 de cada 10 declarações que analiso. A Receita Federal permite a dedução de despesas com transporte, hospedagem e alimentação do contribuinte e de seus dependentes, mas exclusivamente quando o tratamento de saúde é realizado fora do município de residência. Se você mora em uma cidade do interior onde não há o especialista que precisa, ou se o tratamento exige um hospital de referência em outra capital, esses gastos entram.
Pense num cenário real: você vive em Ribeirão Preto e precisa fazer quimioterapia em São Paulo. A passagem de ônibus ou a gasolina, o pedágio e até a estadia num hotel simplório para não voltar no mesmo dia são dedutíveis. O mesmo vale para voos nacionais.
O erro aqui é achar que qualquer deslocamento conta. Se você mora em São Paulo e vai ao psicólogo no bairro vizinho de táxi porque choveu, essa despesa não é dedutível. A regra vale para viagens intermunicipais ou interestaduais obrigatórias por falta de serviço na sua cidade. Para comprovar, guarde os bilhetes de passagem, notas de hotel e recibos de combustível (se for carro próprio). Ter um atestado do médico dizendo que o tratamento é exclusivo naquela outra cidade é uma blindagem extra contra a malha fina.
Coparticipação de planos: o "extra" que passa batido
Você paga todo mês o plano de saúde da família. Talvez você já tenha deduzido corretamente o valor total pago à operadora no ano-calendário. Porém, muitas pessoas esquecem de somar a isso as coparticipações pagas no ato das consultas, exames ou internações.
Planos empresariais, principalmente os modernos e mais baratos, costumam ter uma franquia ou coparticipação. Você vai fazer uma ressonância e, no dia do exame, o hospital te cobra R$ 150,00 de coparticipação. Essa saída de dinheiro não é um "gasto avulso", ela faz parte da despesa médica. O mesmo vale por aqueles R$ 40,00 que você paga de farmácia hospitalar nos momentos de emergência.
O problema é que a maioria dos convênios não envia um informe de rendimentos separado para essas coparticipações; eles enviam apenas o total da mensalidade. Então, você precisa pegar os extratos do cartão de crédito mês a mês ou os recibos pagos no caixa do hospital e somar tudo. Se você somou R$ 12.000,00 de mensalidades, mas esqueceu R$ 2.000,00 em coparticipações pontuais ao longo do ano, você deixou de abater uma fatia real do seu imposto.
Organização é o seu maior ativo fiscal
Percebeu o padrão? O grande vilão não é a complexidade da lei, mas a falta de organização dos comprovantes. A Receita não exige saber se você sofreu para pagar, ela quer saber se pagou e quem recebeu. Manter uma pasta digital no Google Drive ou Dropbox, separada por ano, já resolve 90% dos problemas. Se você tem dúvidas sobre o que entra ou não, vale a pena revisar a lista de despesas dedutíveis na página da categoria impostos antes de fechar o arquivo.
O passo seguinte depois de reunir esses gastos é cruzar seus dados. Se você esqueceu de declarar um rendimento pequeno, saiba que isso pode ser tão perigoso quanto esquecer uma despesa. Um leitor que vendi ações e ganhei menos de R$ 20 mil: preciso declarar Imposto de Renda? pode achar que não precisa nem enviar a declaração, mas qualquer inconsistência pode chamar atenção.
Na prática, o momento de declarar exige frieza. Não tente "ganhar tempo" omitindo gastos que você não tem a nota em mãos agora. Se a Receita pedir a prova depois e você não tiver, a isenção cai e você paga multa sobre o valor, com juros Selic acumulados. É melhor não deduzir do que deduzir sem prova.
Por fim, lembre-se que a restituição não é um bônus, é o seu dinheiro voltando para o seu bolso. Quem faz a declaração no modelo completo e tem muitos gastos médicos (como filhos em ortodontia ou tratamento contínuo) geralmente sai bem mais favorecido do que quem opta pelo simplificado, a menos que o desconto padrão de 20% (limitado a valor) seja muito alto. Faça as contas nos dois modelos no programa gerador. Se a diferença for pequena, o simplificado é mais seguro contra malha fina. Se a diferença for superior a R$ 1.000,00, o completo, com estes gastos médicos bem lançados, vale o risco organizacional.

